Professora fala sobre os preconceitos enfrentados pelas mulheres aos escolherem praticar artes marciais

Em outubro de 2020, a ONG Nosso Olhar lançou o Tatame Inclusivo, um espaço para auxiliar no desenvolvimento das crianças com deficiência através das artes marciais. Em parceria com o professor e ex-atleta, Felipe Nilo, trouxemos ao Espaço Rede T21, em São Paulo, o método que é baseado no ABA, utilizado por ele em sua escola no Rio de Janeiro.  As aulas de lutas inclusivas, como são chamadas, trazem muitos benefícios para os alunos com deficiências e os ajudam a desenvolver suas habilidades e inseri-las no convívio social. 

No projeto, acontece a formação de profissionais que já dão aula e aprendem o método para aplicá-lo nas aulas do Tatame Inclusivo. Uma dessas profissionais é a professora Eduarda Santos Guimarães, de 22 anos, que cedeu uma entrevista à ONG Nosso Olhar para falar sobre a presença das mulheres nas artes marciais. 

No projeto tatame inclusivo, a Duda, como é chamada, é a única professora, mas já tem duas alunas, que são irmãs. Conversamos com ela para entender como se dá a presença da mulher no ambiente de artes marciais, ainda tão masculino e aproveitamos para conhecer essa profissional incrível. 

Duda sempre deu aulas de judô, é faixa preta na modalidade e faixa azul de jiu-jitsu. Ela iniciou no judô por causa do irmão, ele é hiperativo e o pai deles, por opção e para não dar medicação a ele, acabou colocando ele no judô. “Meu pai era faixa verde e sabia da disciplina que seria passada nas aulas. Então, ao matricular meu irmão, na época, o meu ‘castigo’ era ir assistir ao meu irmão treinar. Eu estava com 13 anos. Num dia me chamaram para treinar, eu fui”, conta ela. 

Então, ela começou a treinar e gostou. Depois de duas semanas foi competir. Em sua primeira competição ficou em terceiro lugar. “Foi quando olhei e pensei: Nossa, é o que quero continuar a fazer, continuar competindo’’, recorda. Depois de um dois anos, Duda começou a treinar jiu-jitsu e conta que também se apaixonou. “Hoje em dia quero pegar a minha faixa preta no jiu-jistu também”, comenta. 

Foi a partir daí que ela começou a dar sequência às competições. Foi competição atrás de competição.  Na época, ela morava no Paraná e veio para São Paulo. Ela conta que sua vida toda tem sido isso, pelo esporte. “A faculdade iniciei por causa disso. O relacionamento bom com meus pais hoje, é graças ao Judô. E foi isso, eu disse: ‘Quero pegar a minha faixa preta’. Sempre foi meu sonho”, explica. Em 2018, ela pegou a faixa preto junto ao irmão. Duda conta que sempre falou que iria pegar com ele, e se não fosse com ele, ela não pegaria com mais ninguém. Então, os irmãos batalharam e conseguiram a tão sonhada faixa. 

Quando perguntamos se ela já havia sofrido preconceito por ser mulher, dentro do esporte, e se já tentaram desmotivá-la por ser uma mulher, ela respondeu: “Bastante, bastante. Agora não estou treinando jiu-jitsu ainda porque não encontrei um lugar que me sentisse à vontade. Toda vez é assim, a última vez que eu fui, eu trabalhava no local dando aula de Judô, fui fazer aula de jiu-jitsu e o professor falou que se eu aguentasse as aulas e os treinos, ele pensaria se iria me manter ou não nas aulas. Senão, ele daria um jeito de puxar mais mulheres para dar aulas só para mulheres”, recorda ela. 

A professora conta que já passou por episódios de homens (que também estavam treinando) passarem a mão nela e em outras colegas. E logo recordou de um episódio em que uma amiga teve que parar o treino e falar: – “Para, isso não é treino, você está abusando de mim”.  

“Já enfrentei gente falando: ‘Ah, mas você é toda pequeninha, toda bonitinha, você não faz nada’. É muito difícil para as mulheres. As mulheres ainda sofrem muito preconceito. Sempre usam aquela fala: ‘Ah, é esporte masculino’. Ou a mulher acaba indo fazer a aula e acaba passando por esse tipo de abuso (como o citado acima), que acontece, infelizmente, acontece”, lamenta Duda. 

Ao ser questionada sobre a importância da representatividade, de ter mais mulheres como professora, treinando e competindo, ela respondeu que é muito importante, e lembrou que, hoje em dia, no judô, as medalhas olímpicas, em sua maioria, são da equipe feminina.

“Então, não é porque a gente é mulher que não podemos. É gratificante ver mulheres no meio. Acaba dando mais força pra gente. Eu, por exemplo, amo o que eu faço e quando o pessoal fala: – ‘Ah, você não pode fazer’. Eu respondo: – ‘Hum, posso sim’. Vejo que a mulher tem que ter uma postura diferente até ao ser professora, porque senão o pai já não respeita e, consequentemente, o aluno não respeita. Então temos uma jornada bem dura para conseguir o nosso objetivo. 

Duda acredita que hoje em dia o machismo nas artes marciais já diminuiu bastante, há algum tempo ela não enfrenta esse problema, que teve uma vez no jiu-jitsu. “Uma coisa é você ouvir falar e outra coisa é você presenciar aquilo. Dói, machuca, você fica se sentindo sem saber o que fazer. Mas acredito que o mundo, a população está melhorando em relação a isso”, refletiu ela. 

Ao final da conversa, Duda deixou um recado para as meninas que desejam praticar lutas: “Entra, se dedica! Vai ser difícil no começo, porque você vai sofrer preconceitos e ouvir coisas como ‘nossa, ela está cheia de roxos na perna’, ‘ela está com o braço mais cheinho devido aos exercícios’, mas não tem coisa melhor do que você conseguir sua faixa. O benefício para saúde, seja física ou mental, mesmo que não seja pela faixa, é a melhor coisa. Muito gratificante mesmo!”, encerra ela.