Uma história que levou a um site cheio de conteúdos e dicas de alimentação para crianças com T21.

A maternidade trouxe novos caminhos, ela passou por uma mudança de profissão e assumiu algo que, até então, era novidade. Da atuação no Direito à criação de conteúdo voltado para alimentação e desenvolvimento da criança com Trissomia 21 (Síndrome de Down). Essa é a Marcela Garcia Fonseca, idealizadora da página Papinhas Fora de Série.

Advogada, dedicou-se à carreira acadêmica por um bom tempo, é mestre em Direito Internacional e Doutora em Relações Internacionais. Sempre atuou para a administração pública e privada na área de Relações Internacionais.

     Marcela e o filho, Henrique.

Hoje, ela é mãe do Henrique, a grande motivação para tudo isso acontecer. Quando ele já tinha alguns meses ela criou a página papinhasforadeserie.com, pensada com o objetivo de difundir a existência de uma dieta específica para pessoas com T21 (Trissomia 21), mais conhecida como síndrome de Down.

A conversa com ela foi virtualmente, e se engana quem acha que foi algo rápido. Ela pensou em respostas cheias de conteúdo, reuniu informações e trouxe várias dicas. Tudo feito com muito carinho e que pode ser conferido logo abaixo:

Nosso Olhar: Como e quando surgiu a página ´Papinhas Fora de Série’?

Marcela: O site entrou no ar em setembro de 2017. O Henrique tinha 1 ano e 2 meses e eu já estava cozinhando para ele há 8 meses, totalmente maravilhada pelos benefícios que a dieta tem o potencial de aportar para uma criança com T21.

Henrique em seu aniversário de um ano com os pais.

Essa dieta, criada pelo Dr. Zan Mustacchi foi baseada nas características das pessoas com T21 e de suas necessidades. É totalmente moldada para atender às necessidades físicas e bioquímicas das pessoas com T21, e vai desde a introdução alimentar até a idade adulta. Eu criei o site para difundir a dieta e as receitas que eu estava criando. Ainda tenho todas as primeiras receitas escritas à mão. Eu também queria divulgar o modo de preparo das papinhas, a forma de escolher os alimentos, a preparação da cozinha, a preparação de cada alimento e como servir.

Comecei a perceber que as papinhas do Henrique eram inovadoras e que eu estava fazendo era totalmente desconhecido para todos ao meu redor, tanto para a minha família, como para os amigos e para os pais de crianças com T21 com quem eu conversava e trocava informações. Ninguém jamais havia ouvido falar em oferecer cogumelos, algas marinhas, couve-flor, aspargos, acelga, grão de bico, quinoa e tantos outros grãos, legumes e verduras para os bebês logo nas primeiras papinhas. Todos ficavam no mínimo espantados comigo e eu fui ficando intrigada, pensando que havia uma necessidade de divulgação de toda essa informação.

Diante desse cenário de desconhecimento tanto no Uruguai, quanto aqui no Brasil, eu me convenci de que deveria divulgar. E o meu convencimento passou por uma prova de fogo que me impus: buscar nos livros de cozinha para bebês, mas também em livros de outras dietas específicas, um respaldo para esses alimentos que eu estava oferecendo para o meu filho. Os livros de dietas para crianças comuns e até mesmo os que focam em supernutrição seguem outra linha, porque não existe restrição em relação aos dentes. A dieta acaba sendo outra.

Por outro lado, encontrei uma biblioteca inteira de médicos que criaram dietas anticâncer, dietas com as smart foods, dietas crudiveganas e dietas que tem por objetivo nutrir o cérebro. Dietas que aceleram o metabolismo e que ajudam a restabelecer o aparelho digestivo, considerando que este é o nosso segundo cérebro. Todas essas dietas visam evitar várias doenças e manter corpo e mente sãos.

Então a página surgiu somente depois que eu já tinha a certeza de que as papinhas “funcionavam” e utilizo essa expressão porque as papinhas são “funcionais” mesmo. Eu costumo dizer que surgiu de uma necessidade minha de compartilhar esse conhecimento de uma forma leve e acolhedora. Eu queria difundir o conhecimento e não represar somente para mim. Queria muito que outras mães pudessem ter acesso direto à informação no Google buscando por exemplo: papinhas e síndrome de Down.

Henrique aos 11 meses.

NO: Você costuma falar sobre síndrome de Down, sem mitos. Como foi a descoberta da T21 na sua vida, a busca por conhecimento e o sentimento de dividi-lo?

M: Eu represento um coletivo de mães e pais, chamado “Down sin Mitos”. É uma conta de instagram que também está no Facebook e tem um site em construção. O Down sin Mitos surgiu com 18 mães de toda a América Latina, Estados Unidos e Espanha que tem por objetivo desmistificar ou derrubar mitos acerca da T21. São mães ativistas e difusoras de uma vida com muita informação sobre a T21 e, por isso, sem mitos.

Nós acreditamos que os tais mitos que cercam a T21, esses que se transformam em preconceitos terríveis, esses mitos devem ser combatidos com informação de qualidade. A exposição de nossos filhos serve para normalizar a presença deles na sociedade, e como modelos de uma vida que pode ser “comum” em muitos aspectos, mas sem minimizar ou esconder os esforços necessários para se atingir os objetivos. Ao contrário, mostrando tudo isso. O Down sin mitos tem por objetivo auxiliar pais e mães em busca de informação para que eles possam encaminhar e dar oportunidades aos seus filhos da melhor forma possível, rumo à independência. Nessa esfera nenhum assunto é mito, é lá que desmistificamos tudo.

Então, desde que o Henrique nasceu há 3 anos e 8 meses conheci muitas mães e pais que tiveram filhos com alguma deficiência e muitas mães que tiveram como nós, filhos com T21, e sempre escutei falar nesse luto que ronda os pais, nessa tristeza, num amargor que eu não senti e o meu marido tampouco. Posso te dizer que conosco aconteceu assim: como o Henrique foi um bebê muito desejado e esperado, quando ele nasceu, nós nos apaixonamos no primeiro olhar. O nosso amor só cresceu e se expandiu e segue crescendo incrivelmente, cada dia mais.

O desconhecimento em relação aos aspectos específicos da T21 nós fomos sanando e extinguindo com estudos e informação. O meu marido e eu nos debruçamos na literatura sobre o tema e fomos aprendendo com os especialistas e com cada um dos médicos, de todas as áreas que visitamos e com cada terapeuta que atendeu o Henrique. Por isso a informação é para nós a fonte mais importante para romper determinados mitos e medos que nós mesmos carregávamos e que geralmente as pessoas têm acerca das pessoas com deficiência.

Outro aspecto que considero muito importante nessa caminhada foi o contato com pessoas com T21 e, também, com outras deficiências físicas e intelectuais, nas clínicas que frequentamos e nos eventos que participamos. Esse convívio é fundamental para romper mitos, dúvidas, medos e eventuais preconceitos que qualquer pessoa pode ter a respeito de uma pessoa com T21. Não basta tão somente ler, apenas estudar e ficar restrito ao mundo dos consultórios. A vivência é o que nos transforma, sensibiliza e nos alerta para o que é importante na vida das pessoas com deficiência. Essas três vias são complementares. A tríade representa a grande descoberta, o grande aprendizado e a mudança de vida mais importante.

Henrique comendo uma de suas papinhas.

NO: Qual é a sua visão sobre a nutrição da criança desde os primeiros meses?

M: Bem, eu particularmente aprendi que o aleitamento materno é a melhor das melhores fontes nutricionais que um bebê pode receber da sua mãe. Um legado que levará para toda a vida. E que um bebê com T21 pode desfrutar ainda mais das benesses do aleitamento materno porque para esse bebê haverá alguns diferenciais. Para o bebê com T21 o aleitamento materno, além de nutrir, também fará toda a diferença em relação aos aspectos imunológicos do bebê. Significa dizer que principalmente para o bebê com T21, o que também é claramente válido para todos os bebês, o aleitamento materno atuará como uma vacina imunizante, em prol do fortalecimento do sistema imunológico dessa criança. Eu digo que é um legado de mãe para filho porque é mesmo uma herança genética, uma carga imunológica que ficará impressa na vida dessa criança. Ela terá mais defesas que uma criança que não foi amamentada no peito. E há também todo o aspecto fonoaudiológico também. A criança que mama no peito poderá ter um desenvolvimento fonoaudiológico melhor. O Henrique mamou até 1 ano e 5 meses.

Quando se fala em aleitamento materno, não posso deixar de te contar que eu segui a dieta do Dr. Zan para esse período. Há alimentos específicos para fortalecer o leite e nutrir o seu bebê com tudo o que ele necessita. A dieta está disponível na página, na aba intilulada: amamentação e nutrição.

Para as crianças que não conseguiram “pegar o peito” ou para as mães que não puderam amamentar por inúmeras razões, há várias formas de melhorar o leite de fórmula também, como acrescentando frutas na mamadeira por exemplo, mas é necessário o acompanhamento do pediatra sempre.

Na dieta do Dr. Zan, a criança já pode começar o início da introdução alimentar a partir dos 4 meses, juntamente com a amamentação. Na página, explico os porquês de se iniciar antes e como funciona esta etapa da dieta que intitulei como “sem dentes”, https://papinhasforadeserie.com/sem-dentes-0-dentes/.

A introdução alimentar do Henrique se deu aos 5 meses com os suquinhos naturais e a experimentação de frutas. Foi incrível porque ele adorava.

NO: Pode falar da relação de vocês, pais, com o Henrique?  E como a alimentação mudou a vida de vocês e a relação com a comida? (No sentido de escolher, pensar no prato e apreciar).

M: A nossa relação com o Henrique é ótima, sempre foi. Vivemos em uma sintonia maravilhosa. Ele nos ensina o que é prioritário, nos ensina e amar, a ter uma vida saudável, com hábitos saudáveis e nos ensinou a comer para sermos saudáveis.

A minha relação com a comida sempre teve por objetivo o prazer. Já durante a gestação isso mudou completamente. Agora a comida é um pilar fundamental nas nossas vidas. Sei que o que comemos será transformado em saúde. E em tempos de pandemia, como a que estamos vivendo, o que temos que reforçar, em primeiro lugar? É a nossa saúde, a nossa imunidade, a nossa alimentação, seguramente.

Quando eu comecei a cozinhar para o Henrique, a nossa alimentação mudou também, junto com a dele. Hoje sou muito mais consciente com relação ao uso dos alimentos e tento aproveitá-los por inteiro. Por exemplo, eu comecei a cozinhar com os talos dos cogumelos, que como são mais duros, então eu não usava na comida do Kique, mas usava para a nossa.

Enquanto o Kique comia papinhas, ainda bebê, eu utilizava o excedente dos legumes, verduras, grãos para preparar um outro prato para meu marido e eu. Hoje nos habituamos a comer sem sal, com algas e sempre com condimentos que são super antioxidantes.

   Henrique na feira, em Montevidéu.

No: Saúde e alimentação andam juntas, como falar sobre a sua visão como uma mãe fora de série?

M: Obrigada! Agradeço o elogio. Toda mãe deve ser homenageada, com certeza, porque nos entregamos por completo aos nossos filhos.

Hipócrates já disse: “Que o alimento seja o seu remédio e seu remédio seja o seu alimento”. Não há como desvincular essa tríade: saúde, alimentação e desenvolvimento.

Saúde e alimentação andam juntas. Nós, como pais de pessoas que têm T21 podemos fazer por eles algo com as nossas próprias mãos, que é cozinhar. Esse é um grande legado que podemos deixar para os nossos filhos, porque além de todos os benefícios de uma nutrição fora de série, os estamos ensinando a comer. Alimentar-se bem é conduta para uma vida inteira. As crianças crescem e se tornam adultos e independentes que saberão decidir com base no que aprenderam.

Sobre alimentação e desenvolvimento, uma está intrinsecamente ligada à outra. Tem pais que desejam acompanhar o desenvolvimento dos seus filhos, e exigem avanços, mas se esquecem de que para que a criança responda aos estímulos, ela deve estar muito bem nutrida. Não é alimentada, somente, mas nutrida. E estar bem nutrida é receber um acompanhamento específico, sobre quais são os alimentos mais importantes para ela, aqueles que não podem faltar no cardápio da semana, quais são os ingredientes-chave que devem ser utilizados na preparação das refeições e quais são aqueles alimentos “proibidos”, que não devem compor o cardápio.

NO: Quais são os principais benefícios que te fizeram mudar tudo e passar a cozinhar com tanto amor?

M: Os potenciais benefícios dessa dieta são: potencializar a neuronutrição, compensar o estres oxidativo, garantir capacidade anti-inflamatória, fortalecer o sistema imunológico, facilitar a digestão, evitar a obesidade, o hipotireoidismo, o colesterol e a diabetes e absorver os nutrientes pela via natural, ou seja, pelo próprio alimento e não por via sintética.

Alguns alimentos por si só já têm propriedades extraordinárias, veja a cúrcuma, que tem efeito antioxidante e anti-inflamatório além de proteger o organismo contra: Párkinson, câncer e Alzheimer.

Ovos e cogumelos são ricos em colina, um nutriente que atua em várias áreas: produção de músculos, melhora da memória e do aprendizado, prevenção do câncer, função anti-inflamatória, redução de colesterol e ajuda a higiene do sono.

Por toda a riqueza dos alimentos é que vale a pena investir na boa nutrição. Nós, enquanto pais, não temos que viver reféns da genética, ao contrário, devemos lutar com esse instrumento que é a nutrigenética para vencer as eventuais tendências a doenças relacionadas à T21.

Por isso, para te responder em relação ao Henrique, com certeza vou começar com o benefício da facilitação da digestão. Depois posso enumerar outros benefícios que estão explicados com mais detalhes na minha página, tais como a neuronutrição; a ação antioxidante que combate os radicais livres; a ação anti-inflamatória; o fortalecimento do sistema imunológico; a manutenção do peso; a absorção de nutrientes pela via natural (e não sintética); o estímulo sensorial, entre outros benefícios que eu diria que são os benefícios da epigenética.

Temos que ter claro que os nossos filhos não estão fadados à sua condição genética. Ao contrário. A depender do meio em que vivem, do contato com a natureza, dos esportes que praticam, do ar que respiram, é possível remar contra a corrente da genética e influir de forma a evitar tudo isso. Imagine se dentre essas variáveis inserirmos uma alimentação saudável e rica em nutrientes, em alimentos antioxidantes, anti-inflamatórios, alimentos que fortaleçam o sistema imunológico e alimentos que sejam nutritivos para o cérebro e que não agridam o sistema digestivo!?! Eis um aporte significativo na vida dos nossos filhos. Um aporte que nós, como pais, podemos deixar como legado para a vida adulta, com autonomia.

O tema do dia internacional da síndrome de Down de 2020, previsto pelo ONU, é “nós decidimos”.  Enquanto pais temos que orientar nossos filhos hoje, para que eles mesmos decidam amanhã.

 Henrique na feira, em Montevidéu.

NO: Não poderia faltar a pergunta que você deve sempre ouvir. O que tem na papinha do Henrique? Rs.

M: Para preparar papinhas fora de série, tenho uma composição infalível, que sempre utilizei e foi sucesso: os temperos (alho, cebola, alho poró ou pimentão) à base de azeite de oliva ou óleo de uva; um tipo de grão, dois ou três legumes e uma hortaliça no final do preparo (porque cozinham mais rápido). Quase sempre agregava algum ingrediente fora de série: como alga marinha, cogumelos ou brotos e os condimentos antioxidantes como sálvia, alecrim, tomilho, erva doce e outros. Além disso, na preparação do prato no momento de servir, sempre agrego uma oleaginosa ralada na hora, ou seja, algum tipo de castanha, além do azeite de oliva extra virgem. É nutrição pura!

De acordo com a fase da dieta em que o bebê está, também pode-se agregar um tubérculo e um tipo de carne. Mas a base é sempre a mesma.

Hoje em dia ele já é um menininho e não come mais as papinhas (risos). Agora o Henrique se alimenta da mesma forma que nós. E todos os alimentos separados no prato. Ele já sabe identificar os alimentos e sabe o que quer comer, pedindo a própria comida. É demais! Pra mim foi um processo natural porque fui ensinando e sempre dizendo quais eram cada um dos alimentos, mas sigo me surpreendendo com ele, a cada dia.

Um dos seus alimentos preferidos são os ovos pela manhã, o abacate e banana com a nossa granola caseira. Adora!

No almoço sempre tem algum legume, um grão, quinoa e feijão. Arroz e feijão costumo variar bastante e o grão de bico não pode faltar porque é muito rico em triptofano, que é excelente para o desenvolvimento cognitivo e a imunidade. O Henrique gosta de carne moída de gado, frango é sempre a coxa ou sobrecoxa, que são os mais apropriados, o cordeiro que ele adora porque aprendeu a comer no Uruguai, e também adora peixes em geral, sem falar no polvo (risos). E tem um dia que é vegetariano, sem proteína animal.

Ele também gosta da panqueca fora de série, que é uma adaptação da panqueca tradicional, que faço com farinha de grão de bico e manteiga guee. As massas secas, sempre procuro comprar aquelas que são feitas a base de outras farinhas que não seja a de trigo. O ideal é verificar sempre os ingredientes para não se surpreender com a composição.

Desde as primeiras papinhas eu já cozinhava com cogumelos, então ele já está acostumado e gosta. As algas marinhas também. Agora salpico as algas na comida já na finalização do prato.

Ele também adora frutas, porque foi o seu primeiro alimento sólido e eu sempre comi muita fruta durante a gestação e aleitamento.

Quando eu preparo torta salgada, panqueca, bolo, brownie, cupcakes e cookies sempre utilizo a farinha de grão de bico, então fica tudo sem glúten e é muito mais leve. O açúcar também utilizo o de coco e o mascavo, que são os meus preferidos.

NO: Pode contar sobre o encontro fora de série e a sua participação em outros encontros no Uruguai?

M: Ah! O Encontro Fora de Série foi realmente fora de série, espetacular porque pudemos reunir em Santos, para celebrar o dia internacional da síndrome de Down, no ano passado (2019), especialistas como o Dr. Zan Mustacchi do CEPEC, que dispensa apresentações, a Dra. Fabiane Bittar, da clínica Sorrisinhos, e vários terapeutas também, como as fonoaudiólogas Valeria Mondin Alabarse (CEPEC) e Myrian Botelho (Projeto Sofia Fala). Além da terapeuta ocupacional Fabiana Abreu Prado de Alencar (CEPEC) e Viviane Reis do InclusivaMente.

 

Foi um dia inteiro dedicado à difusão de informação de qualidade e já tivemos um retorno imediato do público que saiu satisfeito. Fiquei muito feliz porque o próprio prefeito de Santos, o Paulo Alexandre Barbosa esteve na abertura do evento e nos apoiou totalmente já que o evento foi gratuito. Agora em 2020 o dia internacional da síndrome de Down vai entrar no calendário oficial da cidade. Um grande êxito, fruto de ações de conscientização como essa. Pra mim, a grande estrela do nosso Encontro foi o mestre de cerimônias, o ator Ariel Goldemberg que é ator profissional e aceitou o convite para trabalhar conosco ao longo de todo o dia. Contando pra você aqui, vou revivendo tudo isso e já imaginando como será o próximo encontro.

Na minha palestra “Papinhas Fora de Série: a inclusão começa na cozinha” pude contar sobre a criação da página e o que tem por detrás das papinhas fora de série: muita ciência e dedicação e o resultado é totalmente benéfico para as pessoas com T21! Também abordei a nutrição como um pilar fundamental para a inclusão das pessoas com síndrome de Down, tanto em casa, quanto na escola e na sociedade.

Mas, para te responder sobre os outros eventos, queria esclarecer que o Encontro Fora de Série foi uma parceria do Papinhas Fora de Série com a Associação Equoterapia de Santos, e eu costumo dizer que teve origem lá em Montevidéu, no Uruguai. E te conto isso justamente porque a minha primeira palestra foi lá, em outubro de 2018, junto à Associación Down del Uruguay. E foi depois dessa palestra lá que surgiu a ideia de realizarmos o Encontro em Santos. O evento na Associação se chamou “Alimentación y desarrollo oromotor en el síndrome de Down” e foi composto por duas palestras, a da fonoaudióloga do Henrique, a Laura Robaina que apresentou a palestra “Alimentación y Desarrollo de las habilidades oromotoras” e a minha “Alimentación y nutrición”, que serviu para apresentar à sociedade uruguaia a existência de uma dieta específica para a população com T21.

Em março de 2018, anteriormente a esse evento, eu também participei de um programa na TV uruguaia, com outras mães de crianças com T21 para abordar o tema.

Campanha para a 5K Down de Montevidéu 2019

NO: Caso queira escrever coisas que eu não perguntei, fique à vontade.

M: Nós como pais de pessoas com T21 temos a obrigação de conhecer e de proporcionar as melhores oportunidades de vida para os nossos filhos. Dentre todas as oportunidades que podemos oferecer, como a estimulação precoce, as terapias, os esportes, o acompanhamento de especialistas, a educação e por aí vai, há um cuidado específico que é transformador e que nós podemos providenciar diretamente, que é a alimentação. E por que não? Mãos à obra e vamos cozinhar porque a inclusão tão sonhada começa na cozinha!

NO:Tem alguma dica que gostaria deixar?

M: Cozinhar em casa é sempre melhor. Tudo o que é feito em casa é mais saudável porque nós sabemos a origem do que estamos comendo. Vale o tempo e o trabalho!

Em casa sabemos, por exemplo, com que óleo foi feita a nossa comida, porque podemos escolher. Os melhores são: azeite de oliva, óleo de uva e manteiga guee.

Variar sempre também é importante. Eu sempre digo: variar para não cair na monotonia alimentar! Às vezes nos vemos comendo a mesma comida sempre. Temos que incorporar esse rodízio de grãos, de legumes, de verduras, de tubérculos, de frutas e até mesmo de temperos. Os mais antioxidantes e benéficos são: sálvia, cúrcuma com pimenta negra, alecrim, tomilho, erva doce, coentro, orégano fresco, manjericão e outros.

NO: Agora um assunto importante e atual. O que não pode faltar na cozinha contra o coronavírus? 

M: Claro que o que todo mundo já sabe é muita limpeza e assepsia. Ir comprar os alimentos tem sido uma tarefa dura mesmo. Há um medo no ar. Ainda acho que não é o momento de estocar comida e que podemos comprar comida fresca. Tem gente que já começou a cozinhar e congelar.

Henrique e a mãe numa feira, em Montevidéu.

Mas o que não vai faltar no cardápio nesse período, vou listar esses alimentos que atuam no fortalecimento da imunidade das pessoas com T21 de todas as idades e claro, vão fortalecer a imunidade de toda a família também. A lista completa está na última etapa da dieta do Dr. Zan, que divulgo no meu site: https://papinhasforadeserie.com/fases-da-dieta/ingredientes-10-dentes/

Aqui vou listar os mais importantes, que agrupei para poder inserir mais de 10:

  • raízes: inhame, abóbora cabotiá
  • ovos e cogumelos frescos: portobelo, branco, paris, shitake, shimeji, mini-cogumelos e outros
  • algas marinhas, alho
  • frutas: vermelhas, cítricas, caqui, abacaxi
  • grãos: grão de bico, feijão azuki, quinoa, arroz negro, vermelho
  • legumes: couve-flor, berinjela, brócolis
  • verduras: kale, couve, acelga, espinafre
  • peixes: de mar de águas profundas, anchovas, sardinhas
  • frutos do mar: polvo, caranguejo, siri, ostras
  • castanha do Pará (rica em selênio, pode ser servida ralada sobre a comida) e castanha de caju (rica em zinco, pode ser ralada)

É muito importante também fazer cozidos de carne com ossos e de peixe com as espinhas para fortalecer o sistema imunológico. E pode-se acrescentar os legumes, grãos, verduras e temperos preferidos.

Henrique e a mãe na feira, em Montevidéu.

NO: Quais alimentos não devem entrar na cozinha?

M: Nesse momento que estamos vivendo acho que enquanto pudermos fazer as compras: feira, supermercado, empório, casa de carnes, peixaria então estamos bem. O problema será se tudo isso se restringir em um par de semanas. Então estaremos à mercê de produtos industrializados. Tomara que não aconteça.

Aqui em casa, tem um produto industrializado que não deixo faltar que é o suco de uva integral (orgânico) que eu compro de um produtor que já fui visitar lá no Rio Grande do Sul. Esse suco tem propriedades maravilhosas para as crianças e adultos com T21.

Em geral o que todas as dietas antioxidantes, anticâncer, as crudiveganas e as dietas que apostam nas Smart Foods dizem é que não se deve comer:

  • comida industrializada
  • açúcar branco
  • sal fino
  • farinha de trigo branca e integral (glúten)
  • lácteos (não se aplica para bebês e crianças pequenas)

A dieta do Dr. Zan apresenta alguns alimentos que devem ser evitados, a depender da biodisponibilidade de cada indivíduo. Mas ele acentua, por exemplo, que deve-se evitar também a mandioca e seus derivados. Aqui uma lista importante para se ter em conta:

  • Mandioca
  • Pão de queijo
  • Biscoito de polvilho
  • Tapioca
  • Farofa feita a base de farinha de mandioca
  • Alimentos sem glúten (quando contém farinha de mandioca)

Agora, as especificidades de cada etapa da dieta não caberia listar aqui, porque já nos alongamos demais, certo? (risos). As listas completas separadas por grupos de alimentos estão disponíveis na minha página. https://papinhasforadeserie.com/fases-da-dieta/. Além de algumas receitas e variedades sobre a T21.