A Dra. Patricia fala sobre este estado clínico tão comum nas pessoas com a trissomia 21.

Entre as pessoas com síndrome de Down é bastante comum encontrar casos de alteração na tireoide. Mas por que acontece? Existe algum fator ligado à síndrome? Para responder essas questões, a pediatra e geneticista, Dra. Patricia Salmona, conversou conosco.

                                                                        Dra. Patricia Salmona

Com grande experiência, a Dra. Patricia é Presidente do Departamento Científico de Genética da Sociedade de Pediatria de São Paulo (SPSP);  Membro da Equipe do Centro de Estudos e Pesquisas Clínicas de São Paulo (CEPEC-SP); Diretora Técnica de Saúde I UGA-III do PS do Hospital Infantil Darcy Vargas (HIDV) e Especialista em Síndrome de Down.

O que é?

“O Hipetiroidismo é definido como um estado clínico resultante de quantidade insuficiente de hormônios circulantes da glândula tireoide para suprir uma função orgânica normal”, explica Patricia. Segundo a médica as alterações da função da tireoide são comuns na população com T21, sua prevalência gira em torno de 25%.

Esses distúrbios quando não tratados, podem comprometer o desenvolvimento e qualidade de vida das pessoas com síndrome de Down. “Por isso as análises periódicas, diagnóstico precoce e tratamento oportuno desses distúrbios são tão importantes”, reforça ela.

A tireoide é uma glândula localizada no pescoço, responsável pela secreção dos hormônios tiroxina =T4 e triodotironina =T3. A liberação de hormônio pela tireoide é controlada por outro hormônio, o tirotropa ou TSH, que é produzido glândula hipófise. Este controle ocorre por retroalimentação negativa, ou seja, quando a secreção dos hormônios T3 e T4, da tireoide, diminui, estimula a hipófise a aumentar a secreção de TSH , para compensar a baixa.

Abaixo separamos algumas questões respondidas por ela:

ONG Nosso Olhar: Quais são as disfunções a pessoa com síndrome de Down pode apresentar e quais seriam os sintomas?

Dra. Patricia: A alteração da tireoide mais comum da pessoa com T21 é o hipotireoidismo subclínico, seguido da doença autoimune da tireoide, também denominada de Tireoidite de Hashimoto (caracterizada pela presença de autoanticorpos)

NO: Como é feito o diagnóstico e tratamento?

Dra. Patricia: Diagnóstico– O quadro clínico característico do hipotireoidismo apresenta: cansaço, intolerância ao frio, pele seca, áspera ou fria, sonolência, apatia,fadiga, aumento de peso, voz rouca,Perda de concentração/memória ,Constipação intestinal, Depressão, Aumento de volume da tireoide, Menstruação irregular, Unhas quebradiças, Edema palpebral,  entre outros.

A dificuldade é que a maioria desses sintomas se sobrepõem à característica da trissomia do 21, sendo assim para um diagnóstico precoce os protocolos sugerem análises periódicas (independentemente de ter ou não sintomas) dos níveis de T3, T4 livre e TSH (através de exame de sangue). Com esta análise, é possível detectar o hipotireoidismo ainda em sua fase subclínica, ainda assintomático na maioria dos casos e com concentrações de hormônios tireoidianos dentro da faixa de referência.

É oportuno iniciar o tratamento imediatamente nesta população, mesmo sendo um quadro subclínico. Ao menos 1 vez ao ano também devemos solicitar os autoanticorpos antiperoxidase , antitiroglobulina e Anticorpos anti-receptores de TSH (TRAb) , afim de diagnosticar precocemente uma tireoidite de Hashimoto (aonde já está instalada uma doença auto-imune).

Tratamento -O tratamento da Tireoidite de Hashimoto bem como do hipotireoidismo subclínico e do hipotireoidismo congênito é o mesmo: reposição hormonio da tireóide. O fármaco de escolha é a levotiroxina, administrada via oral, pelas manhãs em jejum.

NO: Há uma faixa etária ou pode aparecer ao longo da vida?

Dra. Patricia: A qualquer momento da vida o hipotireoidismo pode aparecer. Mas é importante diferenciar do diagnóstico de hipotireoidismo congênito o qual aparece logo ao nascimento, ou seja o teste do pezinho/teste de triagem neonatal aonde é detectado o hipotireoidismo congênito deve estar normal no caso do hipotireoidismo subclínico e na tireoidite de Hashimoto que são  formas de hipotireoidismos adquiridos. No caso do teste do pezinho estiver alterado possivelmente estamos diante de um hipotireoidismo congênito que é mais grave por poder causar diferentes níveis de deficiência intelectual.

NO: Como essas disfunções podem afetar no desenvolvimento?

Dra. Patricia: Os sintomas do hipotireoidismo variam dependendo da idade da criança.O hipotireoidismo em bebês e sem tratamento, pode levar a uma redução da velocidade de desenvolvimento do cérebro e os bebês podem ter baixo tônus muscular, perda auditiva, uma língua protusa, distúrbios alimentares e choro rouco. O atraso do tratamento de hipotireoidismo grave pode dar origem à deficiência intelectual e à baixa estatura.

Em crianças mais velhas e adolescentes são similares àqueles do hipotireoidismo em adultos (como ganho de peso; fadiga; constipação; cabelo áspero e seco e pele áspera, seca e espessa).
s sintomas que aparecem apenas em crianças incluem: uma redução do crescimento, um atraso no desenvolvimento do esqueleto e puberdade tardia.

NO: Tem algum ponto importante para ser falado?

Dra. Patricia: Para produzir corretamente os hormônios, a tireoide precisa de micronutrientes como Iodo, Selênio, Zinco, entre outros, assim devemos dar atenção a uma dieta rica desses nutrientes. Também devemos  evitar a ingesta de folha verde da mostarda, nabo e principalmente de mandioca e seus derivados por serem alimentos bociogênicos e/ou Goitrogênicos que prejudicam o funcionamento da tireóide.